quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Rubra Rosa

Agora estás a rir,
deves dar graças a Deus
de eu ter acabado de ir,
ter se livrado do amor meu.

Cuspiste em meu coração
dizendo que já estás com quem gostarias,
rindo da minha paixão:
"Meu coração a ti nunca daria".

Vá, curta essa "felicidade"
com seu íncubo desgraçado,
que anda pela cidade
te traindo com outros barrados!

Passando em frente à tua casa
reparei cinzas no chão:
é aquela rubra rosa
e os pedaços do cartão.


De como a paz voltará à Terra-Média

Na Terra-Média um poder vai se levantar
Depois de muito tempo adormecido
Com o auxílio de Elrond uma caravana vai enfrentar
Sauron de Mordor, o terror enegrecido.

Valorosos homens e anões também irão
Acompanhando elfos e hobbits de prontidão
Todos juntos focados numa só missão:
Destruir o Um Anel e derrubar de Mordor o portão.

Honrarão antigos nomes com destreza
Com coragem enfrentando o inimigo,
Varrendo de vez a sombra da tristeza.

E assim sendo, criaturas de todo lugar
Seja homem, seja anão, seja elfo do Além-Mar
Terão a merecida paz que arquitetaram os Valar.


Súplica de um eterno amante

Minha querida, não me abandones
Não me deixes sozinho,
Sem ti minhas noites são insones
E cruéis os dias sem teu carinho

Por favor não vá embora, coração,
Fique sempre a meu lado
Sei que errei, e imploro teu perdão,
Sou humano, e o engano é meu fado

Pense no que juntos construímos
Cada conquista, cada sorriso,
Os prazeres que sentimos,
Nada merece ser esquecido

Sempre foi teu o meu amor
Uma aventura não o roubará
Não deixes que isto vire uma dor
Pois a discórdia não nos poupará

Escuta meu conselho, amor meu,
O passado não é relevante
Para sempre serei teu
Pois de tudo que existe na Terra,
És o que há de mais importante.




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Escravidão e Vassalagem

A falsa rainha grita:
"-Estala o chicote, estala o chicote!"
E a multidão incita:
"-Tudo fricote, tudo fricote!"

Enquanto o sangue jorra
Desforra! Desforra!
E nesta negra gaiola
A pele esfola! A pele esfola!
Ordenam os parvos:
"-Trabalhem escravos! Trabalhem escravos!"

Já não aguentamos mais
Ninguém ouve nossos ais!
Assim não dá pra continuar
Nós iremos nos matar!

Tudo o que fizermos
Não é suficiente pra agradar
Por mais que nos esforcemos
Há sempre alguém pra criticar

Saibam vocês que somos gente
E não existe perfeição
Corre em nossas veias sangue quente
Não suportamos escravidão!

Não há motivo pra se preocupar,
Pra qualquer missão somos assaz capazes,
Conosco não precisam se incomodar
Só pedimos que nos deixem em paz!










Hiato

Escolheste teu caminho,
a vida escolheu o meu
que é viver sozinho,
meu coração longe do teu

Cada vez que dás um sorriso
sei que por mim não há de ser,
isto para mim é um aviso:
"Ao mundo dela não poderás pertencer"

Em um futuro não muito distante
vejo meu fim afinal,
por isso tiro da estante
convites do meu funeral

Teu retrato pelo tempo apagado
será meu leito de morte,
meu cadáver encurvado
lembrará a minha sorte

Quem sabe em outra feliz era
poderemos juntos viver,
pois meu futuro a Deus pertence
e meu presente teu há de ser.







Apple Martini

Mas que incrível natureza
essa que desponta no horizonte,
um cenário de beleza
que jorra tal qual água da fonte.
Água que bebo sem parar,
porém seu gosto doce
me faz a doçura de uma mulher lembrar

Quanto mais água bebo
mais fico entorpecido
por ter na mente a lembrança
de ter por ela adoecido

Bebo mais e mais
e a vejo em minha mente
pensando que o amor que sinto
por ela, igual ninguém sente

Me encharco na água fria
e a vejo a meu lado
com uma taça dourada nas mãos,
cabelos ao vento
e os olhos fitos em mim

Levanto-me com dificuldade
ficando a ela defronte
e á taça que me estendeu;
aceito e tomo vorazmente
mas sinto em minha língua
um gosto diferente

"É o veneno do meu olhar"
diz ela cruelmente

Vendo-me cair no chão,
gargalha ironicamente
e vai embora levando consigo
minha alma, coração, sangue e lágrimas
para poder alimentar-se

Vendo distanciar sua imagem,
parto para outra existência.
A fonte secou
e eu também.




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Distante dos olhos

Das mulheres que encontrei
Através do meu desejo,
Reconheço em teu olhar
Aquilo que sempre quis

Divina é tua gargalhada
Encanta minha poesia.
Mesmo distante de ti,
Ideias me vêm à mente
A respeito do teu corpo
No meu, em sinestesia

sábado, 20 de dezembro de 2014

Amor Líquido

Na calada da noite
no escuro de um quarto,
me encontro sozinho
a fitar teu retrato

Cada cigarro é uma lembrança
de tempos remotos,
da minha época de criança
do nosso primeiro voto

Tudo neste ordinário ambiente
possui um significado
parece-me que há algo ausente,
que ficou no passado

Existe, sim, algo ausente:
o teu perfume agridoce,
tua boca fremente
e teu olhar doce.

Tu foste como o vento
em minha vida parva;
sem querer, calaste meu lamento
sem proferir uma palavra

A fluidez da tua emoção
banhou minha vida de sentido
e inundou-me de ilusão,
justo eu, um homem tão lido...

Entre os lençóis éramos completos,
envolvidos em silêncios tão ruidosos
sem edificar nenhum projeto
por entre abraços tão sestrosos

Chegaste sem apresentações
e foste embora sem despedidas,
deixando-me à mercê de mim mesmo
nessa rotina tão cansativa

Um dia, a realidade chegou sorrateira
em uma aurora deveras cinzenta,
acordei no leito, sem minha companheira:
é o vento que enfim se dissipa.











Déjà - Véanus

Aprecio teu rosto,

enquanto tu sorris
do teu altaneiro posto
de mulher desejada

Almejo a curva bailarina
do teu sorriso amigo,
e a maciez feminina
do teu ventre juvenil

Tua distância me tortura
em tão próxima amizade,
delírio da minha loucura

Como numa roda-viva
a história se repete.
Minha solidão uiva.







quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Só nos dois no salão.. e esta valsa

      A madrugada chega sorrateira, escurecendo cada canto do salão de dança, engolfando os casais num jogo de sombras. A lua se ergue ao seu apogeu, redonda e lasciva, iluminando com sua luz notívaga os olhos das mulheres faceiras.
     Já é tarde, as horas se perdem no ritmo envolvente da Valsa, e morrem na cadência pungente do Tango. Aos poucos, todos vão embora e só nós continuamos rodando no mármore do salão. O único casal, dançando no eco de uma orquestra cansada. Teus olhos desfocados sorriem inocentemente, disfarçando a angústia do teu coração e a fadiga dos teus pés pequenos, trôpegos. Tuas mãos trêmulas tocam meu rosto como tocam uma rosa, apreensiva de encontrar, distraída, um espinho.
     Em meio à fumaça dos cigarros, suspensa no ar, tu me beijas com a culpa de um condenado à morte. Lábios desesperados, peito arfante. "É a valsa que tu ouvias em nosso aposento, enquanto eu te traía ao som de um tango, na despensa."
     Dito isso, ela se desvencilhou de mim, em lágrimas, e em passos rápidos foi embora sem rumo. Nunca mais a vi, nem ouvi seu nome de bocas alheias.
     Vomitei, pedindo ao bandoneon que tocasse "Mano a Mano".


domingo, 14 de dezembro de 2014

Dara

Tu estás de mim tão distante
não consegues minha voz ouvir,
mas à noite, no mesmo instante,
a lua cheia que eu admiro
é a mesma que te faz sorrir

Teu olhar penetrante e macio
é um convite às tuas carícias,
mexendo com meu brio
com teus beijos e tuas delícias

Vamos logo executar
nossos desejos infernais,
quero da tua seiva provar
em atos pagãos e carnais
dentro de ti.

Acende teu cigarro amargo
na brasa do meu corpo insano,
beije-me enquanto estamos quentes
ame-me enquanto estamos vivos.


























Modelo: Dara

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Tu

Do meu verso és a inspiração
que oprime minha mente,
do meu amor, a maldição
que de mim é inerente.

Dos meus olhos, és as águas
que banham minha face,
do meu coração, as mágoas
e as amarguras da classe

Da minha vida, és a prosa
que escorre da minha mão,
da minha morte, a rosa
e a podridão de uma paixão.

Lamúrias

Sei que alegre estás agora,
tua face vibra de amor.
Porém não esqueças da paixão de outrora
que te causou muita dor

Ofereço-te meu coração
em uma bandeja de cristal,
e te canto uma canção
sobre um sentimento fatal

Para ti sou um invisível ser
que não desperta nenhuma emoção,
por isso convido-te a este poema ler:
tentativa inútil de tocar seu coração.

Porém não espero nada ganhar
pois mantenho meus pés bem no chão,
muito alto sonhar
foi o que consumiu meu coração

Mais uma coisa para lhe falar:
Os que foram fofos ontem
hoje não lhe falarão
e em uma negra nuvem
transformarão seu coração.












Um Brasileiro

     São três horas da manhã. Saio para a rua em busca de alegria, mas não a encontro. Vou à praça, não há ninguém. Durante o curto tempo em que lá permaneço, a única coisa que sinto é tédio. Isto porque as únicas coisas que há lá são passarinhos encorujados em seus ninhos e a luz bruxuleante das lâmpadas públicas.Saio. Vou à rua Augusta para ver as vitrines daquelas lojas caríssimas, em que cada peça de roupa equivale a incontáveis salários mínimos que recebo. Só que nesta noite as vitrines estão vazias, pois as lojas trocaram-nas no dia que acabou. Enfim, passo defronte a uma casa grotesca, desgastada pelos anos. Uma casa que é o retrato do abandono, do descaso. Mas um espírito de renovação a cobre e me cobre: metade da fachada pintada e um encontro marcado. Afinal, amanhã é Páscoa. Dia de renovação.
     Entro em casa com sono.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Deusa Portuguesa

Ó divina lusitana
porque é que te acanhas
quando estou a te oscular?
Se o meu maior desejo
é ter sempre o ensejo
de contigo ficar!

Ó sereia do Tejo
não fujas dos meus beijos,
os teus lábios são meu lar!
Pelo tanto que te quero
cada instante que te espero
é um martírio invulgar!

Musa dos meus Açores,
por ti morro de amores
sem ti não posso viver!
Dê-me ao menos uma chance
para eu mostrar-te a nuance
do meu amargo querer!

Rapariga tão perfeita,
minh'alma não aceita
teu desprezo cruel!
Se me beijas, não aguento
teus carinhos seriam alento
me invadindo qual um tropel!

Escultura de Portugal,
teu corpo é meu maior mal,
me seduz a todo instante!
Se te vejo nua e bela
pela fresta de tua janela
meu desejo será total!

x

Desejos

Você é,
de todas as minhas fantasias,
a mais intensa.
De todas as minhas alegrias,
a mais sutil.
De todos os meus medos,
o que eu quero enfrentar.
De todos os ensejos,
o que eu não quero perder.
De todos os pecados,
o mais divino.
De todos os meus cigarros,
o que eu trago mais devagar.
De todos os vícios,
o mais vital.
De todos os meus arrepios,
o mais instigante.
De todas as minhas crenças,
a mais mística.

Entre tantas amigas,
a mais sedutora,
detentora de um aroma
tão suave quanto teu sorriso
tão lascivo quanto teus seios
tão intenso quanto meu desejo
de ser teu homem,
vez ou outra.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Lágrimas Celestes

Chove sem parar
na rua lá fora,
e cada gota espelhada
reflete minha dor de outrora.

Chuva que bate todo o tempo
no alumínio de minha janela cerrada,
tenha piedade de um sujeito
cuja alma já não aguenta
ser de tal forma espezinhada!

São todas lágrimas celestes
de um céu não mais tão atraente:
Inferno na terra é o que me trazes,
torturando-me com um amor ausente...

As nuvens negras de fracasso
me engolfam suavemente,
com o aroma agridoce
da amargura onisciente

Acendo as luzes e vejo,
no espelho, a palidez de minha face:
caveira sem vida, exangue,
vítima de si mesmo, caçoado
por verdadeiras lágrimas de sangue.

Que será de ti?

É o teu sórdido cinismo que me tira do sério
quando sorris com infâmia para todos os rapazes,
menos para mim, este ser atroz e funéreo
cujos dons no amor não possui ou os têm incapazes

Será que não sabes a podridão da tua imagem artificial?
Ou não deseja fitar tua sombra num espelho esquecido?
A indecisão do teu caminho no amor é teu grande mal,
não sabes qual linha e agulha usarás para costurar teu coração partido

Nem tu sabes ao certo quem és,
o fantasma do teu passado te empurra para a penitência
que te afasta aos poucos da plena consciência

O que será de ti, acho que nem Deus tem conhecimento,
teu futuro é soturno, no amor tu colherás ainda
todas as flores mortas que plantaste na tua indecência infinda.



sábado, 1 de novembro de 2014

Recuerdo

Me voy a rever mi pasado
y besar todas las mujeres que amé,
volveré a empezar lo que he terminado
así podré reavivar la llama de mi vida

Caminaré por las mismas calles
escuchando los mismos sonidos,
de cuándo era solo un niño
de cuándo era feliz

Hoy, no puedo más cantar,
ni tampoco andar;
mi vida he llegado al final

Pero no estoy entristecido,
pues todo lo mal yo he olvidado;
ahora, soy solo un recuerdo.


Let it go

Our love is wasted, dear
I can feel the paine through us.
We need to end this here
and stop this scary discuss.

You can breath the fear
into my dark eyes;
so why are you still near
telling me all these lies?

Go out this room,
let me beat it alone
I'm sure that soon
I'll find someone.

Because, to me, you're already gone.

Glórias de um Pierrot

Em suas andanças errantes,
o pierrot clama por um amor
muitas vezes tão distante
só trazendo forte a dor

Em sua viola cantante
chora as mágoas da ilusão
e, não obstante,
as conquistas do coração

Nos trajes traz os caminhos
percorridos pelo corpo servil,
em cada botão, em cada fio de linho,
a lembrança de uma mulher vil

Nas praças em que dorme
atrai olhares complacentes,
que não sabem o que o consome
nem seus sonhos tão dolentes

No olhar tão comovente
transborda a recusa de um afeto,
sofrendo silente
por alguém longe e perto

Traz nas mãos calejadas
a via tortuosa das paixões
das rosas colhidas e roubadas
entregues a duros corações

Apesar de toda a desventura
e quimeras carnavalescas,
o pierrot tem uma lura
de esperanças nababescas

De que um dia venha a ter
recíproco um carinho
antes da lura vir a ser
a vítrea cova em que sozinho
venha enfim a morrer.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ritual de Iniciação

Entre um cigarro e outro
nós nos aproximamos,
em silêncio estamos
alcoolizados e nus

Desejosa você põe
minha mão entre tuas coxas,
meus dedos sentem tua pele,
planície quente e lasciva

Num revirar de olhos
tu esqueces quem sou
no sexo a igualdade é plena,
somos todos bichos no cio

Dentro do teu corpo macio
tu me inicias com ternura,
entre teus seios me corrompo
no pecado mais divino que existe.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Dom Quixote

Teus cabelos arredios,
tua silhueta excitante;
várias garrafas vazias
esquecidas na estante

Teu corpo quente
docemente adormece
num abraço dolente
enquanto meu peito lhe aquece

Minha cabeça instável
em teus seios se equilibra,
num prazer inimaginável

Quisera enriquecer meu mote
para te manter mais atenta em mim,
mas eu sou um pobre Dom Quixote...

sábado, 4 de outubro de 2014

Sutil Jogatina

A verdade encontra-se em cada carta
que se joga astutamente sobre a mesa,
basta virá-la na posição exata
e utilizá-la com destreza.

Faz-se uma canastra limpa;
não a suje, poupe teu coringa
para quando surgir a Hipocrisia,
despida de seu manto de ironia.

Salve tua mão antes do fim,
bata e pegue o morto
não seja absorto!
distrações são as piores armadilhas

Agora olhe nos olhos de teu comensal,
pois neles moram terríveis traições;
é a tua chance de vencer no final
arrancando do outro fracassadas exclamações

Tua vitória está ao teu alcance
agora é a hora certa de ludibriar
use tua lábia, quebrando a banca num lance,
e vá embora altivo, sem olhar para trás.

















Pintura: "The Card Players" (1894-95), Paul Cézanne.

Spleen e cigarros

O que mais me entristece ultimamente
é a falta da tua presença marcante,
que me acalmava de um jeito dolente
me entretendo com tua silhueta excitante

Meus dias reduzem-se a nada;
entre cigarros e inércia adoeço,
vitimado por minha paixão rejeitada
cujo vácuo em meu âmago não esqueço

Abro as janelas, e a luz intensa
que invade meu cômodo omisso
só faz reavivar a crença
da divindade de teu sorriso

Nada que eu faça para entreter-me
pode varrer de mim a sensação
de teus beijos doces a derreter-me
que só fermentavam minha ilusão

Só me resta sozinho esperar
pelo dia em que voltarás sorrateira,
disposta a minha solitude esmagar
assim que entrares por minha soleira

E enquanto não sinto teu ser
se aproximando dos meus sentidos,
fumo, esperando te ver
plena, em meu infinito esquecido.















terça-feira, 5 de agosto de 2014

Círculo Vicioso

Hoje só quero estar sozinho
e abrir as portas à solidão, 
sem ninguém em meu caminho
que me recorde uma paixão

Ligo a vitrola e ponho um disco
que me ajude a aceitar
a rejeição que insisto
em perseguir sem cessar

Agora estou a chorar
em meu quarto, ocioso,
por não saber como encerrar
este círculo vicioso

É difícil decifrar
os mistérios de uma mulher,
ocultos no doce olhar
que é a resposta para o que ela quer

A resposta foge à minha percepção,
confusa com o sentimento
entorpecida pela atração
que me desperta o encantamento

Chego sempre atrasado
nos femininos corações;
da rejeição estou cansado
fazem-me mal as paixões

Agora só quero repousar
no seio de mais uma ferida,
tentando aprender a lidar
com uma presença feminina

Depois de tantas decepções
ainda há quem me questione
o motivo de minhas ilusões
com um passado tão insone

O presente me foi hostil
renegando minha presença
em sua dimensão tão vil

Já o passado me acolheu
caloroso em seus braços,
calando um adeus
amenizando meu cansaço

Nesse mundo já inexistente
eu descanso meu coração,
sempre em busca de um silente
mas expressivo abraço de paixão.

















Da Futilidade de Aracne

Aracne, exímia tecelã,
de vários olhos sua face
é dotada, porém num fútil afã,
se permite falsificar num desenlace
de paixão e cegueira vãs.

Quão borbulhante é o despontar
para uma nova vida de esplendor.
Nestas bolhas, prismas se fazem notar,
cada qual com seu tamanho e sua cor;
de todos os lados se pode enxergar
uma expectativa e um dissabor:
basta saber qual prisma optar.

Aracne, com seus mil olhos confusa fica,
multiplicando os ângulos de seus próprios
prismas irregulares, e abdica
de pensar com mais sabedoria,
escolhendo com o coração, que lhe sorria
mostrando o caminho mais egocêntrico.

Então Aracne acredita nas falácias
que lhe contam o seu clã;
com o tempo, estas mentiras 
ao correr por suas hemáceas
a tornam propriamente uma arguta canastrã.

A humanidade de Aracne fica presa em sua teia
dando lugar a um bestial comportamento,
o lugar cativo das amizades escasseia
pois no seu coração só há um pensamento:

O pensamento hedonista da luxúria,
que às gargalhadas enevoa sua mente;
causa aos outros clãs fúria
o que hoje se tornou a Aracne decente

Uma aranha venenosa, eis o que restou
daquela que outrora fora uma bela mulher,
cujo perfume inebriava as gentes,
hoje enoja e ninguém quer.

A borbulhante juventude tem prazo
rigoroso, Aracne não se recorda
nem aceita este real fato,
e hoje bem me comprazo
em conjeturar seu fim amargo,
pois na lama em que hoje chafurda
ficará para sempre ao largo.









sábado, 2 de agosto de 2014

Panos Quentes

A distância que nos separa,
saudável ao meu amor próprio,
é louvável, pois repara
tudo o que fiz de impróprio
e tudo o que você poderia ter feito

Evito fotos suas,
representações eternizadas do seu rosto
com aquele sorriso cínico
de menina aspirante a mulher

Procuro esquecer seu nome
não falando de você a outros,
assim não recordo sua voz
e o riso pueril que saía
da sua boca pequena e fugaz

Tenho medo de cair na sua gravidade,
voltando assim a orbitar obcecado
em torno dos seus cabelos perfumados,
ansiando por tê-los entre meus dedos
enquanto meus lábios acarinham os seus

Nós dois já seguimos em frente
com pés no chão e olhos no céu,
às vezes olho para trás antes de seguir,
procurando entre os desconhecidos hostis
um olhar conhecido que pudesse ser o seu.












domingo, 13 de julho de 2014

Morte Acidental

  As árvores de um cemitério sempre parecerão mais belas aos olhos de quem tem saudade. Cada epitáfio, por mais simples que seja, é um marco do inevitável, como se estivessem ali para provar-nos
o quanto somos inferiores a qualquer coisa decididamente superior e maior.
  O Destino.
  Ao ler as frias palavras de despedida impressas no frio concreto de uma lápide qualquer, fico imaginando a razão daquela pessoa aleatória ter partido. Mas o mais plausível é que simplesmente chegou a hora de partir, de deixar de existir. Fantasmas? Todos temos nossos próprios fantasmas enquanto vivos, atordoando nossa massa cinzenta por toda a vida. Um amor perdido, uma carreira jogada ao vento, um tapete puxado, uma morte prematura.
  As mortes prematuras têm um sabor de nostalgia decerto mais denso do que um fim tardio (dito "alívio", "descanso") pela mesma razão com que uma criança às vezes inocente lamenta um sorvete caído ao chão. Aquela guloseima tão deliciosa aos olhos deveria estar mais sublime ainda ao paladar. Uma criança, ou um jovem, quando morre, dizem: "A vida toda pela frente!" como se na vida houvesse um padrão correto de idade para morrer. Por exemplo, até uns setenta anos a pessoa seria considerada "nova"; passados os setenta, diria-se: "Meu filho, você já tem setenta e um, pode se encaminhar ao cemitério mais próximo para providenciarmos a sua morte da melhor forma possível." É confuso afirmar que  um sujeito tinha a vida toda pela frente, quando sua vida foi justamente aquele quinhãozinho de anos; ou, como acontece aos bebês que morrem logo após o parto, cuja finalidade aqui em nosso convívio tenha sido apenas contemplar o rosto da mãe. Todos temos uma finalidade, nada é feito por acaso. Alguns dirão "missão", não gosto deste termo, é por demais militar, não somos soldados ou mártires.
  Seria exagero dizer que a morte sempre vem em boa hora, como se fosse a finalidade da nossa travessia por estas bandas de cá, como afirmavam com fé os antigos egípcios. Mas na grande maioria dos casos, é um cumprimento de protocolo. Pelo menos por parte do morto.












sexta-feira, 11 de julho de 2014

Conselho

Se você pensa que consegue me atingir
saiba que muito bem estou,
pois suas provocações, aprendi a não ouvir
e meu amor por ti, já acabou

Não se gabe por ter um corpo bem feito,
pois outras garotas o têm mais que você,
se você foi rejeitada, bem feito,
mais intragável que você está para nascer

Se você caiu, aprenda a levantar
sem encurtar a blusa pra se mostrar,
faça com que eles vejam seu interior
podendo assim curar sua dor

Fique sabendo que, apesar da ironia cortante
eu lhe desejo muita ventura,
e que sua força dilacere a amargura
que ainda reside em seu coração errante.










Como podes ser tão bela?

Como podes ser tão bela?
Decerto não há ninguém
no Universo ou além
de alma mais singela

És um santuário de beleza,
teus olhos não canso de fitar
desejando a ti amar
mantendo amizade acesa

Sabes bem que em meu coração
não há lugar para mais nada,
posto que em minha estrada
tu passaste como um furacão

Mas não me machuques, peço com humildade
pois não suporto mais sofrer
e sem ti já não posso viver
porém, se não me queres, fales ao menos a verdade.

Uma Chance

Minha amiga, ouça o que tenho a te falar
sinto por ti nobre amizade e sincera afeição,
mais que isso, encanto e fraterno carinho;
Terás sempre lugar cativo em meu coração
e hoje, peço-te um minuto de atenção

Gostaria que me desses um voto de confiança,
uma chance de dar-te sólida alegria
pois depois de nossas tempestades, temos direito a uma bonança
preciso preencher minha vida tão vazia!

Tu, com tua meiguice e graça, és perfeita para tal!
podemos, juntos, cruzar os oceanos revoltos de nossas existências
afundando os obstáculos e afogando o mal,
descobrindo os sete prazerosos mares da convivência

Enfim quero alegrar teus dias
mostrar-te o quanto és bela e pura
fazer dos teus conflitos, meus conflitos
ser parte da tua vida, te amparar nas tuas torturas!

Espero poder ser especial para ti
da mesma forma que és para mim,
basta somente uma chance.














terça-feira, 8 de julho de 2014

O Dançarino de Tango

Moça que entrou
no meu coração
e meus olhos molhou
ouça um pouco
a minha oração

Nas noites em claro
em que, doente, o Tango fico dançando
vejo você passando
e então saro

Em minha boca, a rosa,
na tua, a luz solar
tremeluzindo, preguiçosa
a me desafiar

O Tango largarei!
Para uma valsa valsar
e contigo dançarei
até a eternidade findar

Deixe-me entrar no teu mundo
e viajar contigo!
conheça-me a fundo
e se encante comigo!
pois sabes que além de tudo
sou teu amigo!

Quero te amar
dia
após
dia,
quero te completar
sem deixar tua vida vazia,
quero te namorar
num beijo lento, que arderia
quero te levar
para de um farol vermos o amanhecer,
e rir ao por do Sol
e sonhar silenciados no anoitecer

Quero achar o que não achaste
pois em lugares errados procuraste

Quero ser para ti, enfim
o amor sem fim
que mora em mim
e morará em ti.












Verbo Amar

Eu te amo
Tu não me amas
Ele também não te ama.
Nós amamos quem não nos ama,
Vós amais seres vãos
Eles e elas, que nos rodeiam,
Esses sim nos amam...

Conformismo

Sei que tentas me evitar
Pois pra você não sou ninguém
Mas você deve bem saber
Que eu sou o que mais lhe quer bem.

Sinto não ser dono de maviosa voz
Para cantar enquanto passas
Mas aqueles que a têm de sobra
São os de alma mais atroz

Lembra-te dos dias
Em que te fiz rir
Riso esse que me fez refletir
Me fez deixar de ser abúlico,
Pois a amargura quis me açambarcar.

Porém não me rendi,
Rompi as grossas correntes
Para render-me a você,
Acorrentar-me à tua existência.

Alguns me dizem que sou acéfalo
E com isso concordo,
Pois esse tal de amor não pode
Ser sentido na mundana mente
E nem só no coração,
E sim nas veias nossas
Levando esse amor por todo o corpo
Até que não se saiba mais
Distinguir corpo de alma.































domingo, 6 de julho de 2014

Bus Stop

Foi como um vento do passado:
Quando dei por mim
Estávamos sozinhos, lado a lado,
Simples assim,
Um passado que nunca terá fim
E que ironicamente nunca existiu.

Você falava de coisas sem importância,
Sobre o ônibus ou sobre a prova de português
E eu ouvia tudo e, na minha ânsia,
Olhava os seus lábios como que na primeira vez
Primeira vez que nunca tive,
Porém meu desejo ainda vive.

Eu sorria e te fazia gargalhar
Somos amigos, além de tudo,
Além da minha vontade de beijar,
abraçar e amar você,
Mas você insiste em fugir de mim
Somos amigos, além de nada.

De repente, das profundezas do trânsito
Surge meu ônibus proletário:
Antes de embarcar, olho pra você mais uma vez
E sinto a esperança lentamente morrer,
Mas desconfio que não é a esperança,
E sim eu mesmo, morrendo aos poucos.
















Insegurança

De onde você vem
menina linda de olhos castanhos?
Será que seu abraço me fará bem
ou será só mais um desengano?

Será doce o gosto do seu beijo,
ou amargo como o fel de um desamor?
Será macio o toque das suas mãos,
ou áspero como uma lixa que causa dor?

Não sei se me rendo à sua sedução
Ou se continuo te admirando de longe,
tenho medo que meu desejo vire uma paixão

De qualquer modo, o melhor é arriscar
seja o que Deus quiser dessa ilusão,
que infelizmente já não consigo evitar.

Verdade Duvidosa

Há uma fumaça negra no ar
Sinto seu cheiro e vejo sua cor,
É a fumaça que segredos quer espalhar
E que esconde um desonrado traidor...

Infame traidor, ou traidora?
É cada vez mais escura a fumaça
Infeliz impostor, ou impostora?
Estou diante de uma desgraça...

As máscaras deverão cair
Revelar-se-á a face "verdadeira",
A muralha de alguém irá ruir
Não restará pedra nem areia...

Da lama das mentiras, a verdade ressurgirá
E em torrentes de fúria, apontará o causador,
O culpado das farsas e de tanto rancor
Mas qual é a verdade, só o tempo dirá.

domingo, 22 de junho de 2014

A Passagem

Neste túmulo esquecido
meu cadáver repousa
profanado e enegrecido
sem direito a uma lousa

Jogado aos vermes fui deixado
por aqueles que me amaram;
pelos amigos desprezado
e pelo mundo injustiçado

Pouco a pouco me desmancho
aos pedaços, de ilusões,
exalando o perfume lúgubre
do amor e das paixões

Meu coração amargurado
segue agora parado,
inútil e desgraçado,
por mulheres torturado

Enquanto os ossos não aparecem
e minhas carnes não apodrecem
tenho a amarga companhia
dos vermes que me laceram

Mas uma visita
um drinque me oferece:
é a Morte afinal
a única que não me esquece,
e me pergunta, faceira,
com sua voz derradeira:

"O que vistes da vida,
minha nobre ovelha?
te entregarei a Lúcifer
para arder na grelha!"

Minha resposta a ti, ó Morte,
é que nada vi:
nunca vi sombra de sorte

Mas que eu seja enfim condenado
e pelo diabo queimado,
pois minh'alma está cansada
e da vida, não levo nada.


Rancor

Ares novos trazem a esperança
de viver cálidos romances;
mas o fracasso vem logo à lembrança
e a solidão volta a mostrar suas nuances.

Rendição

Vivo dizendo que te odeio
Mas a verdade é que te desejo,
Quero afogar-me em teu seio
Apertar-te contra meu peito
Largar-te sedenta em meu leito
E por fim dar-te um beijo

Por mais que me cause repulsa
Tua carne fogosa,
Em momentos a paixão convulsa
Renasce fervorosa
De tal modo ardilosa,
Que se torna venenosa

Invade meu pensamento
E retoma meu tormento,
Ateando fogo à minha amargura
Que em brasa eu deixara
Exumando a tortura
Que resoluto eu enterrara

E tu com este olhar
Destinado a me provocar,
O aroma de tuas madeixas
Calando minhas queixas...
Teu corpo é um paraíso
Do gozo e do riso!

Não tenho mais esperança de resistir
Ao teu feitiço mortal,
Só quero agora ouvir
Teu ronronar imoral,
Quero em teus braços cair,
Queimar-me no teu calor infernal

Enfim, tomei minha decisão
Consumaremos de vez essa atração,
Meu corpo ao teu apertado
Numa sinfonia de gemidos
De beijos e libidos,
Teus lábios nos meus
Num ritual pagão
Dois corpos ateus
Rendidos à paixão

Num olhar de ternura
Sinto que a mim estás unida,
Onde deixamos esquecida
Nossa amarga amargura

Em nossa jovial aventura
Preenchemos a solitude,
E num esgar de loucura
Atingimos a plenitude.













sexta-feira, 13 de junho de 2014

Carta nunca lida de um escritor bêbado

  Me lembro de você todas as madrugadas, quando olho para o lado vazio que costumava ser a tua parte da cama, do lado da janela; pois você nunca cansou de reclamar do fedor do meu cigarro antes de dormir, precisava abrir a maldita janela. Me lembro de você pela manhã, quando levanto e o café não está na mesa, apenas as minha guimbas e uma ou duas garrafas vazias, lembranças da noite passada em claro. Você sempre me alertava sobre o perigo de trocar o leite morno matutino pelo brandy ameno que despertava minha corrente sanguínea.
  Recordo como se fosse ontem o dia que uma garrafa de gim minha se quebrou no assoalho do teu carro novo. Você xingou e praguejou todas as gerações passadas e futuras da minha família, enquanto eu lamentava cada miligrama perdida daquele elixir alcoólico. Você me esbofeteou e eu comecei a levantar tua blusa e acarinhei tua barriguinha bastante saliente. Transamos ali mesmo. Senti o cheiro do gim nos teus cabelos durante dias e dias.
  Esse mesmo carro tive que vender pra pagar o empréstimo do banco e limpar meu nome que a cambalacheira da tua mãe sujou. Mas eu nem o usava mais, a gasolina está os olhos da cara e eu não estou aqui para sustentar merda de governo nenhum.
  Me lembro de você defendendo o governo. Dizia que o governo nada tinha a ver com o aumento no preço do cigarro e da bebida. E eu te dizia: " Se o governo não tem nada a ver com essa patifaria, quem tem? Dionísio?
  Você defendia muita gente, eu me lembro. Me defendia quando a tua mãe me chamava de bêbado. Defendia o nosso filho quando ele apanhava no colégio. ( Nosso garoto hoje é homem feito, quase dois metros de altura, magrinho, tadinho. Anda nessa moda de só comer mato, é vegetariano, coitado. Diz que verdura faz bem à saúde; replico que sexo é que faz bem à saúde, ele ri ).
  Nunca mais publiquei um livro sequer desde que você foi embora. Não tenho paciência nem ânimo pra bater à máquina ideias sem razão, como esta carta, que você nunca lerá. Tenho passado meus dias a fio, embora você não tenha perguntado. Vez ou outra o Quincas vem aqui jogar truco, mas ultimamente ele anda com umas ideias tão bestas que dá dó, nem dá vontade de mandá-lo entrar, nem de jogar. Jogo besta!
  Pois é. Quem sabe um dia esbarro contigo pelas esquinas da vida. Eu não mudei nada, eu acho. Não se esqueça de me chamar quando topar comigo.
  Posso não lhe reconhecer mais.