quinta-feira, 14 de abril de 2016

Princesa do Mato Grosso

Para I. P.

Ela tem os lábios mais lindos,
Daqueles que se deseja beijar
Por horas a fio; com minha mão
Em seus cabelos macios
Irei sentir toda a doçura
Que seu beijo pode dar

Seu coração tão magoado
Carrega uma dor amarga
Que os olhos tentam disfarçar;
Mas a moça chora sozinha
E a beleza de suas lágrimas
Inunda sua alma jovem

Mocinha linda...
Conquista-me sem perceber
Com esse seu jeito tão meigo
De falar sobre todas as coisas
Seduzindo-me aos poucos
Sendo apenas ela mesma.




















Pintura de Richard S. Johnson

terça-feira, 12 de abril de 2016

Poem for those who can't see me for a while

The streets are asking for some kind of something
maybe they are waiting for your return or
pretending you are still here, laughing
through the unbreakable glasses
you keep around your eyes;
but those familiar streets are lying,
not to me, but to themselves
because I know it is too early
to expect any of your comebacks
since I've realized you haven't even left.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Notívagos

No âmago quente da noite
fervem desejos inconfessáveis
de indivíduos ordinários
envoltos na luz incerta
e amarelada dos bares;
cada qual em seu simulacro
de paixões enfumaçadas
pelos cigarros consumidos
ad infinitum.

Em cada cinzeiro repousam
memórias compartilhadas
por cada coração errante
que senta-se à mesa;
em cada copo, o reflexo
turvo de uma realidade
insípida, digerida
somente com o auxílio
do álcool.

Mas apesar do vazio
todos sorriem de canto
à pretensão de terem
outra identidade amanhã
em seus escritórios
pequenos e padronizados;
e em seus lares silenciosos
onde enfim encontram
a paz necessária.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Menina Moça

Em todos os dias do ano
ela abre um sorriso radiante
que ilumina até mesmo o sol,
e o grande astro lhe sorri de volta
aquecendo assim o corpo esguio
e adocicado desta moça tão linda
como as manhãs frescas

Esse olhar faceiro que ela tem
me encanta mesmo de longe
deixa assim delirante
minha mente insana,
e sozinho em minha cama
fantasio com os meus dedos
embrenhados em seus cabelos

Seus pés pequeninos
suavemente percorrem
os caminhos de seus desejos;
quisera sentir deslizando
por todo o meu corpo nu
esses pés tão deliciosos,
o tempo inteiro a me provocar

Esta bela moça vive em plena
harmonia com todas as criaturas.
O mundo inteiro é seu
e ela pertence ao mundo
quando quer espairecer;
assim como eu também serei dela
e ela minha, pelo menos uma vez.






















Modelo: Cláudia Lima

sábado, 2 de janeiro de 2016

E o fogo fez-se morno

As últimas marcas da tua presença
reduziram-se a um porta retrato
inodoro e insípido e incômodo,
o qual me sorri todas as vezes
que abro a gaveta da escrivaninha.
É sobre ele que jogo a cinza dos meus cigarros;
sua forma arredondada e moldura côncava
auxiliam-me nesse pequeno recalque,
porém logo sinto remorso
e limpo cuidadosamente como que para evitar
que tu visses tamanho rancor cinzento
a enfumaçar minha espera.
“Fumando espero” é o oportuno nome
do tango que eu ponho por teimosia na vitrola.
Tu costumavas dançar ao som desse tango,
nua, cantando no teu espanhol fluente
e fumávamos até embriagar as paredes
com a fumaça de nossos corpos em chamas.
Agora o único a queimar é o meu cigarro,
à espera de alguém que não mais conheço.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Perene

Não, a vida é eterna
Abstração do mundo inteligível
Tal qual uma história materna
Repetida e sempre sensível

A vida é um círculo infindo
Que não tem início nem final,
Como a onda que sempre vem vindo:
Não se pode compreender afinal.

A vida é um eterno devir
De existências que se entrelaçam,
Que só se pode sentir
Quando as vidas passam.








sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ranço

     A aurora que te viu sair é a mesma que te viu sorrir quando da tua chegada sem cerimônia ou alardes. Eu encaro a aurora; nela vejo as cores do teu vestido que se distancia na rua bocejante. São 5:40 da manhã e eu nunca estive de pé a essa hora em dias sóbrios, mas hoje estava completamente desperto. Justo em uma terça-feira tu resolves desertar, mulher. Se fosse no sábado, pelo menos um pouco de whisky poderia lhe oferecer. Hoje, pra beber, só o teu veneno destilado; preciso de gelo pra engolir, já que tu mesma não o faz. É muito fácil ir embora e sentar na calçada e acender um cigarro – do meu maço - e baforar olhando a minha barba por fazer. É fácil ir embora sem arrumar a cama, um disparate deixar-me com o cheiro do teu sexo no quarto onde terei que dormir sozinho. Tratarei de por outra em cima do meu colchão; ou simplesmente trocar o lençol. Nem uma nem outra, eu desço. Desço e olho para os teus olhos para que dos meus não te esqueças. Olharei até que sequem as lágrimas, olharei até que eu não sinta mais nada, até que o transe desfaça tua imagem da minha memória. Mas não. Ele chega e para no meio do caminho, de modo que nós três formamos um triângulo equilátero um tanto transgressor, pois não há igualdade. “Quando ela olha no azul dos teus olhos, amigo, é o castanho dos meus que ela quer encontrar” e esta última palavra minha se confunde com uma risada, que mais tarde vai se confundir com a dor. Mas só mais tarde.