domingo, 6 de dezembro de 2015

não tem título

este poema não tem nenhum propósito
para existir
não há nada de interessante nele
e também não há nada
de interessante na rotina
de quem o está escrevendo
- no caso eu –
apenas gasto a tinta dessa caneta
que comprei não sei onde
e paguei não sei quanto
escrevo qualquer coisa com essa caneta
preta
para estancar de alguma forma amorfa
essa noite piegas que passo em
branco

mas tem uma coisa muito engraçada
você que lê essa porcaria
certamente não tem nada melhor pra
fazer
e isto
iguala você a mim, veja só!
então faça um favor a si mesmo
e pegue uma caneta
não precisa ser preta e nem precisa ser uma caneta
na verdade
e escreva a porra que quiser
não precisa ser no papel, paredes e muros servem
e aprenda a esvaziar-se de sofás
e decassílabos

você vai ver como vai sorrir
e gargalhar até, se for dos mais
extrovertidos
quando perceber que o propósito desse
pseudo – poema
é fazer você chegar até aqui
e não colocar um ponto final









terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Felicidades, Musa

Hoje é aniversário dela
E daqui de longe eu sorrio
Ao pensar que tenho um pretexto
Para escrever para ela novamente,
Sem parecer um devoto
Não de uma santa, mas de uma deusa

O sorriso dela inspira qualquer trovador
Que se atenha em seus lábios
O encanto é inevitável;
Mas quem diabos haveria de querer evitar
Tamanha maravilha?

Não consigo encaixar em métricas
Os versos que escrevo para ela,
Nenhum esquema de rimas
Consegue traduzir
Minha estupefação
Quando ela aparece de novo
Mais magra, mais sorridente
Mais linda
(Se é que isto é possível)

Ela mora longe
Do outro lado do coração
Talvez ela só exista na minha poesia
Ou nos meus sonhos;
Nestes eu consigo abraçá-la
Nestes ela permite
Que eu afague seus cabelos.


















Modelo: Cici

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Labuta

Dorme a noite em seu leito de sonhos desfeitos
Feito o navio que de tão brutalmente imenso
Não se esparrama nos laguinhos diversos
Onde a vida ferve em sorridentes sonhos
Que acalentam o desespero cego
De quem só enxerga a luz de fora
E apaga a de dentro.

Boceja a noite em seu leito de letargia
Onde crianças amarrotam os lençóis
E ronronam fantasias impossíveis
Sobre um mundo de impossíveis verdades
Crianças que veem cores e matizes
No vento e se deixam levar pela brisa
Rumo ao tudo que constroem
A partir do nada que sabem

Acorda a noite num aquecido embalo
Que seca os lagos docemente
Faz suar as crianças imaginárias
Que despertam seus amigos concretos
Iniciam sua roda-viva perene
Impulsionam a roda-viva dos pais
E vivem na dialética solar
A ansiar pelo repouso que não virá.

















sábado, 7 de novembro de 2015

Epitáfio

Morre a luz que me alumia
o coração sem futuro:
sina triste tem no escuro,
cego por paixões vazias.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Sensorial

A saliva decantada
De uma boca tão lasciva
Goteja na carne viva
Da vontade incendiada

Os membros estão em transe,
Sentem a respiração
Dos olhos em efusão

A voz terna reconhece
A própria predileção
Arfar com sofreguidão,
E dela não mais se esquece

Aqueles lábios sutis
Nos meus lábios pueris
Criaram a epifania.







(Penetre um título)

Marejado olhar
De brilho embaçado
Cinza como o mar
Revolto e cansado
A quebrar nas rochas
De tons perturbados,
Como a tua rocha
Entre os seios magros
Úmidos das lágrimas
Caídas dos olhos
A chorar por mim
A gozar por mim
Destilada seiva
Pungente demais
Pra quem enrijece
Corações alheios
Em lugar do falo.




















Imagem: Tumblr "Draws-Art"