sábado, 30 de setembro de 2017

Garota Da Gávea

Hoje acordei pensando em ti
com uma saudade ardida
das horas vividas
a teu lado por aí
no vento do Rio
no leito do Rio;
nem a chuva de Copacabana
aquiesceu a vontade insana
de estar com você
de estar em você
na túrgida noite da Barra
rondando tua boca;
sorriso igual não há
do Recreio ao Joá
como esse que é teu,
ilumina mais que o sol
do meio-dia lá da Penha, bicho;
os arabescos da Cinelândia
não são páreos aos contornos teus,
marota Vênus urbana
musa do Renascimento meu.
Neste exato momento dói,
e nem a ponte Rio-Niterói
é suficiente pra te trazer pra mim;
mas quando voltares, minha flor,
dar-me-ei completo a ti inteira
em nossas grandes praias desertas,
de braços abertos, no mais gostoso dos sacrifícios.

Modelo: Clara Nascimento


domingo, 5 de março de 2017

Expiração

Não me julgues por não derramar
cálidos versos sobre teu colo
nem prostrar-me a teus pés junto ao solo
na casta intenção de te adorar;

Já fui devoto à exaustão
de lábios tais, rubros devaneios,
de corpos atados por enleios,
na ânsia amarga do ato pagão.

Tanto desperdício de lirismo
em parcas musas dissimuladas;
extinta verve da madrugada.

Apesar de não mais rutilantes,
meus olhos reluzem com teus louros
gentis, a ruir meus agouros.


























Ismael Nery, "Resignação Diante Do Irreparável", guache.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

So Girly

She's an unusual chick
from my ordinary town;
cute hair, no crown,
some sexy lipstick

From above she stares me
when I hold her waist,
so close I almost taste
things I cannot see

She likes what I adore;
She's a Gryffindor's knight
with a Ravenclaw's sight
asking for more

Such a remarkable beauty
lays down in her walk,
I could kiss her feet
as an usual duty

But I still don't know her,
and that's my goal for now
already knowing how;
no need to be harder.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Sufocar

Cala no teu peito o lamento
Sulfuroso que te transborda
Pela face crua e calhorda;
Incêndio seco em movimento.

Reserves o gosto agridoce
Do choro latente ao espelho;
Não grites nem peça conselho,
Todo palpite é precoce.

No fundo dos olhos cansados,
Angústia de sufocar
Mil vontades de se doar.

A dor que sentes te desperta
Do ócio de todo amar,
É ferida que quer fechar.


























Jean-Jacques Henner, "Solitude", óleo sobre tela, 1886.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ressaca

Revoltas ondas que quebram
nos limites do areal
trazem lágrimas de sal,
gotas tristes que não secam

Em seu ventre de amargor
guardam pálidos abraços
de tantos desfeitos laços
travestidos de fervor

Agridoce é a sina
do náufrago que com mágoas
vem perder-se nestas águas

Águas fundas do meu peito
calam sorrisos e amores
ao transbordarem-se as dores.


domingo, 31 de julho de 2016

Perfumaria

Saudades daquele aroma
sutil e tão delicado
do teu vestido amassado
atirado no carpete
orvalhado do meu quarto;

Na janela escancarada
a aurora até se adianta
para ver tua risada
ao saudar o novo dia...

Sem ti a noite é longa
mais longa que teus cabelos,
negros como a madrugada
que preenche tua ausência,
a iluminar com desvelo
os lençóis em que dormias,
dos quais emanam aromas
sutilmente eternizados
pela fricção doentia
de nossos corpos noturnos.



quarta-feira, 13 de julho de 2016

To Have And Have Not

The old records taught me to desire
In their ancient, classy grooves,
Such a guide for my moves
I couldn’t avoid being on fire.

Among the cigarettes I shall find,
Hidden between girl’s legs,
The pleasure my youth begs
So milky it blows my mind.

No place is better than another;
The unknown attracts me
More than these bodies I see
Which I can’t feel for no longer.

Despite I have some patience
The ancient tunes have it lost;
Haven’t taught me what they must,
About love and its magnificence.

But through my anguish I realize:
Love might be a kind of silence.

sábado, 25 de junho de 2016

Bezerros De Ouro

Tudo é uma mentira.
Cada estrofe, cada verso,
cada vernáculo disperso
até a rima derradeira;

Parca e febril imagem
de fantasiosas musas
veneradas qual deusas
ilustra minha linguagem;

Qual não seria o assombro
ao desvelarem-se as ilusões
em melindrosas obsessões!

Poesia soberba e fútil;
anseia por uma relevância
que não satisfaça sua ânsia.


domingo, 22 de maio de 2016

Ecos Do Inaudível

Para D.D

Guardarei tuas ausências
uma a uma com saudade,
entre as cruzes da vaidade
e os nós da resiliência

Nosso caso sem início
linearmente acabou;
de repente transformou
a nossa espera num vício

Sinto ainda um arrepio
ao imaginar os teus seios
sobre os quais não repousei...

Mas não temo nosso abismo;
duas almas não se afastam
se outrora uma só foram.


















Pintura: Óleo sobre tela, de Julio Reyes.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Princesa do Mato Grosso

Para I. P.

Ela tem os lábios mais lindos,
Daqueles que se deseja beijar
Por horas a fio; com minha mão
Em seus cabelos macios
Irei sentir toda a doçura
Que seu beijo pode dar

Seu coração tão magoado
Carrega uma dor amarga
Que os olhos tentam disfarçar;
Mas a moça chora sozinha
E a beleza de suas lágrimas
Inunda sua alma jovem

Mocinha linda...
Conquista-me sem perceber
Com esse seu jeito tão meigo
De falar sobre todas as coisas
Seduzindo-me aos poucos
Sendo apenas ela mesma.




















Pintura de Richard S. Johnson

terça-feira, 12 de abril de 2016

Poem for those who can't see me for a while

The streets are asking for some kind of something
maybe they are waiting for your return or
pretending you are still here, laughing
through the unbreakable glasses
you keep around your eyes;
but those familiar streets are lying,
not to me, but to themselves
because I know it is too early
to expect any of your comebacks
since I've realized you haven't even left.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Notívagos

No âmago quente da noite
fervem desejos inconfessáveis
de indivíduos ordinários
envoltos na luz incerta
e amarelada dos bares;
cada qual em seu simulacro
de paixões enfumaçadas
pelos cigarros consumidos
ad infinitum.

Em cada cinzeiro repousam
memórias compartilhadas
por cada coração errante
que senta-se à mesa;
em cada copo, o reflexo
turvo de uma realidade
insípida, digerida
somente com o auxílio
do álcool.

Mas apesar do vazio
todos sorriem de canto
à pretensão de terem
outra identidade amanhã
em seus escritórios
pequenos e padronizados;
e em seus lares silenciosos
onde enfim encontram
a paz necessária.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Menina Moça

Em todos os dias do ano
ela abre um sorriso radiante
que ilumina até mesmo o sol,
e o grande astro lhe sorri de volta
aquecendo assim o corpo esguio
e adocicado desta moça tão linda
como as manhãs frescas

Esse olhar faceiro que ela tem
me encanta mesmo de longe
deixa assim delirante
minha mente insana,
e sozinho em minha cama
fantasio com os meus dedos
embrenhados em seus cabelos

Seus pés pequeninos
suavemente percorrem
os caminhos de seus desejos;
quisera sentir deslizando
por todo o meu corpo nu
esses pés tão deliciosos,
o tempo inteiro a me provocar

Esta bela moça vive em plena
harmonia com todas as criaturas.
O mundo inteiro é seu
e ela pertence ao mundo
quando quer espairecer;
assim como eu também serei dela
e ela minha, pelo menos uma vez.






















Modelo: Cláudia Lima

sábado, 2 de janeiro de 2016

E o fogo fez-se morno

As últimas marcas da tua presença
reduziram-se a um porta retrato
inodoro e insípido e incômodo,
o qual me sorri todas as vezes
que abro a gaveta da escrivaninha.
É sobre ele que jogo a cinza dos meus cigarros;
sua forma arredondada e moldura côncava
auxiliam-me nesse pequeno recalque,
porém logo sinto remorso
e limpo cuidadosamente como que para evitar
que tu visses tamanho rancor cinzento
a enfumaçar minha espera.
“Fumando espero” é o oportuno nome
do tango que eu ponho por teimosia na vitrola.
Tu costumavas dançar ao som desse tango,
nua, cantando no teu espanhol fluente
e fumávamos até embriagar as paredes
com a fumaça de nossos corpos em chamas.
Agora o único a queimar é o meu cigarro,
à espera de alguém que não mais conheço.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Perene

Não, a vida é eterna
Abstração do mundo inteligível
Tal qual uma história materna
Repetida e sempre sensível

A vida é um círculo infindo
Que não tem início nem final,
Como a onda que sempre vem vindo:
Não se pode compreender afinal.

A vida é um eterno devir
De existências que se entrelaçam,
Que só se pode sentir
Quando as vidas passam.








sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ranço

     A aurora que te viu sair é a mesma que te viu sorrir quando da tua chegada sem cerimônia ou alardes. Eu encaro a aurora; nela vejo as cores do teu vestido que se distancia na rua bocejante. São 5:40 da manhã e eu nunca estive de pé a essa hora em dias sóbrios, mas hoje estava completamente desperto. Justo em uma terça-feira tu resolves desertar, mulher. Se fosse no sábado, pelo menos um pouco de whisky poderia lhe oferecer. Hoje, pra beber, só o teu veneno destilado; preciso de gelo pra engolir, já que tu mesma não o faz. É muito fácil ir embora e sentar na calçada e acender um cigarro – do meu maço - e baforar olhando a minha barba por fazer. É fácil ir embora sem arrumar a cama, um disparate deixar-me com o cheiro do teu sexo no quarto onde terei que dormir sozinho. Tratarei de por outra em cima do meu colchão; ou simplesmente trocar o lençol. Nem uma nem outra, eu desço. Desço e olho para os teus olhos para que dos meus não te esqueças. Olharei até que sequem as lágrimas, olharei até que eu não sinta mais nada, até que o transe desfaça tua imagem da minha memória. Mas não. Ele chega e para no meio do caminho, de modo que nós três formamos um triângulo equilátero um tanto transgressor, pois não há igualdade. “Quando ela olha no azul dos teus olhos, amigo, é o castanho dos meus que ela quer encontrar” e esta última palavra minha se confunde com uma risada, que mais tarde vai se confundir com a dor. Mas só mais tarde.


domingo, 6 de dezembro de 2015

não tem título

este poema não tem nenhum propósito
para existir
não há nada de interessante nele
e também não há nada
de interessante na rotina
de quem o está escrevendo
- no caso eu –
apenas gasto a tinta dessa caneta
que comprei não sei onde
e paguei não sei quanto
escrevo qualquer coisa com essa caneta
preta
para estancar de alguma forma amorfa
essa noite piegas que passo em
branco

mas tem uma coisa muito engraçada
você que lê essa porcaria
certamente não tem nada melhor pra
fazer
e isto
iguala você a mim, veja só!
então faça um favor a si mesmo
e pegue uma caneta
não precisa ser preta e nem precisa ser uma caneta
na verdade
e escreva a porra que quiser
não precisa ser no papel, paredes e muros servem
e aprenda a esvaziar-se de sofás
e decassílabos

você vai ver como vai sorrir
e gargalhar até, se for dos mais
extrovertidos
quando perceber que o propósito desse
pseudo – poema
é fazer você chegar até aqui
e não colocar um ponto final









terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Felicidades, Musa

Hoje é aniversário dela
E daqui de longe eu sorrio
Ao pensar que tenho um pretexto
Para escrever para ela novamente,
Sem parecer um devoto
Não de uma santa, mas de uma deusa

O sorriso dela inspira qualquer trovador
Que se atenha em seus lábios
O encanto é inevitável;
Mas quem diabos haveria de querer evitar
Tamanha maravilha?

Não consigo encaixar em métricas
Os versos que escrevo para ela,
Nenhum esquema de rimas
Consegue traduzir
Minha estupefação
Quando ela aparece de novo
Mais magra, mais sorridente
Mais linda
(Se é que isto é possível)

Ela mora longe
Do outro lado do coração
Talvez ela só exista na minha poesia
Ou nos meus sonhos;
Nestes eu consigo abraçá-la
Nestes ela permite
Que eu afague seus cabelos.


















Modelo: Cici

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Labuta

Dorme a noite em seu leito de sonhos desfeitos
Feito o navio que de tão brutalmente imenso
Não se esparrama nos laguinhos diversos
Onde a vida ferve em sorridentes sonhos
Que acalentam o desespero cego
De quem só enxerga a luz de fora
E apaga a de dentro.

Boceja a noite em seu leito de letargia
Onde crianças amarrotam os lençóis
E ronronam fantasias impossíveis
Sobre um mundo de impossíveis verdades
Crianças que veem cores e matizes
No vento e se deixam levar pela brisa
Rumo ao tudo que constroem
A partir do nada que sabem

Acorda a noite num aquecido embalo
Que seca os lagos docemente
Faz suar as crianças imaginárias
Que despertam seus amigos concretos
Iniciam sua roda-viva perene
Impulsionam a roda-viva dos pais
E vivem na dialética solar
A ansiar pelo repouso que não virá.

















sábado, 7 de novembro de 2015

Epitáfio

Morre a luz que me alumia
o coração sem futuro:
sina triste tem no escuro,
cego por paixões vazias.