sábado, 7 de março de 2015

Sinfonia Orquestrada

Eis que surge o regente
Diante de um público respeitável
Penetrando nossa mente
Com seu latim execrável.

Na hierarquia dos instrumentos
Sempre há quem fale mais alto,
sufocando nossos pensamentos
um por um, de assalto.

De um acorde arcaico
A criação do mundo se fez,
acolhendo um povo laico
e suprimindo sua altivez.

Com uma refinada melodia
Inicia-se o primeiro ato;
Um arremedo de epifania
Que provoca o desacato

As famílias se entrecortam
Submissas à mão do mestre;
manda quem empunha a batuta
e quem tem instrumento obedece.

E no final da sinfonia cerram-se as cortinas,
aplaudimos então,
Por não termos poder de vaia!

Participações de Anthony Clint e Gabrielly Almeida.


























Arte: "A Orquestra", óleo sobre tela de Dionísio Weschenfelder

segunda-feira, 2 de março de 2015

Arcos do Triunfo

Desde os fios dos cabelos longos
até o arco dos pés pequenos,
sinuosa tu és.

Convexos são teus seios rijos
e os olhos castanhos amendoados
por demais ousados.

Minhas mãos arrepiam-se
ao sentir a curva do teu ventre macio,
convidativo, porém fugidio.

Teus pés são como os pães frescos
que costumo comer no desjejum,
com uma modesta dose de rum.

É divino enfim imaginar por horas a fio
o sabor agridoce do vale
que trazes entre as coxas roliças,
protegido pela côncava virilha
que meus lábios querem percorrer,
descendo até a panturrilha.


















sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Noite Comprida

É a noite o devaneio
das almas suplicantes,
que mantêm um anseio
em seus corações errantes

É a noite o vício
na penumbra embalado,
que abafa o suplício
do coração apaixonado

É a noite a tragada
da fumaça vital,
que a paixão destroçada
fez chegar ao final

É a noite a rosa
embebida em licor,
que de tão cheirosa
me negou seu amor

É a noite o gim
do copo vazio,
que bem no fim
te deixa com frio

É a noite o calor
do conhaque fervendo,
que cai com frescor
na garganta ardendo

É a noite o amargor
do uísque barato,
que ulcera o amor
roído pelo rato

É a noite o inverno
do gelo do amor,
que é o inferno
e a chama da dor

É a noite o dia
que raia lá fora,
uma manhã fria:
vou-me embora.











Prece

Longevas sensações me invadem
trazendo-me à mente teu rosto,
torpes emoções me persuadem
a ainda te ter por meu gosto

Por mais que reze e implore
ajoelhando-me a todos os santos
do amparo teu não consigo esquecer,
o que me deixa sozinho, aos prantos

Mas o que posso fazer
se teu perfume em minha casa está
melhor mesmo é morrer,
para que os vermes possam meu cadáver corroer
e levar minha carne podre
para as larvas dos bichos poderem almoçar

Então, espero-te no paraíso
para que tu possas novamente me preterir
em favor de São Lucas
-a quem darás teu riso-
ou ao Arcanjo Rafael
-a quem vais com teu amor cobrir.

Amém...













segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A coita do coito

     Estamos sós num quarto escuro daquele motel, no centro, com cortinas roxas desbotadas. Fomos parar ali da mesma forma como ela apareceu: do nada. Quando me dei conta, estava estirado na cama, com ela montada em cima de mim berrando feito uma cabra sem nem saber o motivo. O cigarro estava quase queimando meu dedo, não me lembro de tê-lo acendido. Ela deve ter acendido pra mim, Camel, a marca que ela gostava. Os meus eram Carlton, e já haviam acabado.
     Calor insuportável. O ventilador, inútil, quase parando. Cheiro de esperma, talvez meu. Será que eu gozei? Os peitos dela balançavam numa velocidade erótica, exótica, pra-cima-pra-baixo-pra-cima-pra-baixo. Ela gemia e eu pensava “essa gorda vai me foder”. Casada, mas sem filhos – menos culpa – balzaqueana e gostosa. Marido mais velho, obsessivo e broxa.
                   Eu trabalhava pra ele.
     Ela gozou, se contorceu como uma louca, cuspindo nos peitos, mandando eu lamber. Aqueles cem quilos me matavam de tesão. Peitos grandes, macios por natureza. De repente ela me tira de dentro dela, se afasta e acende um cigarro. Senta no criado mudo, pernas abertas, a vagina ainda escorria o licor daquele corpo farto.
     “Tira esse esmalte do pé”, digo. Gosto de unhas naturais. Ela calçava 35, seus pés pareciam pequenos pães.
     Assim que acabou de fumar, ela vestiu-se e foi arrumar o cabelo no espelho trincado. Eu gostava dela de verdade. Essas mulheres vêm e vão, fodem quando querem, com quem querem, e acham que não deixam rastros em ninguém. Independentes, elas dizem que são. Ela vai embora assim como chegou: do nada. Sua ninfomania deixa um vazio palpável em meu espírito.
     Acontece que espíritos não fodem. São fodidos.  














segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Analogia Assonante

Em todos os longos dias da semana
percorre em meu amorfo coração
uma paixão ardilosa e leviana,
que me afana a soberana calma
d’alma, há muito conquistada
e pleiteada, com afinco
pelo zinco do meu cérebro
analógico e incapaz
de conter uma emoção
de rapaz sentimental.

Um agudo desejo, sacana
e intransigente, mente.
Me engana de maneira
brejeira e eloquente;
alcançar teu nirvana
é a meta do meu ego,
sem espaço para meio-termo
tampouco satisfação mediana.

Quero tua alma de cigana
e tua astrologia libriana,
que me distrai numa gincana
marota e anafórica
da tua amarga recusa;
dê-me logo uma oportunidade
de misturar-me à temperatura
insana da árida savana
dos nossos corpos sinestésicos,
mutuamente analgésicos,
num anafilático choque
de viscoso prazer.





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Estátua de Sal

Quantos mistérios faceiros escondem-se
nas curvas marotas da tua silhueta?
teu brônzeo olhar de menina idealiza;
teu robusto corpo de mulher realiza

Por trás do teu sorriso luzidio
há uma irresistível lura hedonista
na libido dos teus lábios joviais,
que acendem meus delírios mais carnais

Nos teus fartos contornos femininos
os meus se encaixam com exatidão,
nossas carnes misturar-se-iam na escuridão

Teu oculto sexo, delicioso e pagão,
inspira meus devaneios de homem solitário;
mas tu hesitas diante de mim: eis meu calvário.