sábado, 4 de julho de 2015

Fumando Esperas

Numa madrugada qualquer, daquelas
Em que não se encontra a mínima paz,
Acabo te encontrando solitária;
Alma acesa e cigarro a palpitar
Junto ao poste de luz da tua rua,
A olhar para mim entre as espirais.

Rua que é tua tanto como eu,
Que inutilmente ainda escrevo versos
Inspirados por tua sordidez
Deliciosa de esculpido tesão,
Cujo licor agridoce não mais
Liquefaz meu paladar tão sedento.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

As Above So Below

Céu e Inferno podem coexistir no mesmo espaço.

Tal como Sol e Lua, que mesmo estando equidistantes
Vislumbram-se diariamente por alguns instantes.

Cada alma tem seu espelho enigmático do inverso
Refletindo o oposto de si em si própria,
A representar o (des)equilíbrio do universo.

A lágrima que transborda de cada lago sem esperança
Em sua ambiguidade carrega o peso e a leveza
Ao destilar na mesma maré alegria e tristeza,
Irrigando o rosto triste que espera a bonança.

A doce mulher que hoje sorri com brandura
Amanhã agirá com refinado egoísmo
Não escondendo sua natureza leviana,
Envernizada com o rutilante lirismo
Que recobre seu corpo ornado de loucura.

Para cada sorriso largo há duas perturbações
A priori e a posteriori do efêmero contentamento :
A angústia, tanto em alcançar este desejo onírico
Quanto por tê-lo perene apenas no pensamento;
O Inferno está, pois, nos extremos das libações.

A alma astuta convive em plena harmonia
Com os conflitos de sua dicotomia interior
E sabe exteriorizar sem dissabor,
Com parcimônia, toda a dor da alegria.

Sabe entregar-se à morte a alma resignada;
Disciplinada, segue sem olhar para trás
O caminho que sobriamente traçou em sua jornada.

O Céu é, pois, a promessa de um regozijo futuro
Para os pecados já redimidos de outrora.

O Inferno é o agora.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Eros e Philos

“A liberdade é incompatível com o amor. O amante é sempre um escravo.” 
Baronne de Staal

            Quando aquele espinho perfurara cruelmente sua mão direita, já havia perdido as contas de quantos buquês de rosas preparara até então naquele dia dos namorados enfadonho. Possuía uma modesta floricultura numa rua outrora movimentada.
            Ao aparecer algum cliente, ele sorria de modo vago, perguntando se poderia ajudar. Os rapazes não entendiam nada de flores, nem sequer sabiam o significado das cores de cada rosa – o vermelho das paixões insanas, o amarelo das amizades platônicas, o branco da falsa inocência e da paz que não se encontra no amor –  e compravam sempre as vermelhas por serem  as mais comuns. Certamente suas namoradas adoravam as mesmas flores anuais, e assim o sexo habitual estaria garantido.
            Todo ano, no dia dos namorados, ele prepara um buquê misto de rosas amarelas e vermelhas, e guarda no estoque, numa prateleira feita especialmente para esse fim. Colocava-os lado a lado, ano após ano, e lá apodreciam. Neste ano não seria diferente; porém, a cada ano, uma flor a menos era unida ao solitário buquê.
            Hoje, colocaria apenas uma flor. Não seria amarela, nem tampouco vermelha. Tingiu de preto a rosa mais alva que possuía e esperou que curtisse ao sol que entrava pela janela embaçada. Com ela seca e quente, deixou-a na referida prateleira, tendo deixado cair numa pétala uma gota de sangue da sua mão ferida pelo espinho.
            Desligou todas as luzes, fechou todos os armários e trancou a loja para sempre, com a mesma chave que usara para cerrar seu coração de amador.

domingo, 7 de junho de 2015

Caleidoscópio

Eu te observo.
Por trás das portas,
Por trás dos teus véus.
Eu te rondo,
Seguindo o caminho
Das tuas espirais tontas.
Eu te persigo sutilmente,
Apreciando teus movimentos.
Logo estarei em teu calcanhar,
Te pegarei pelos pés.
Como uma armadilha.

sábado, 6 de junho de 2015

Perséfone

Entre as coxas daquela doce fêmea
Há um paraíso, uma planície
Quente como o inferno da superfície
De sua boca pálida e boêmia

Seu nome é conhecido na noite;
Em cada vã alcova é urrado
Pelo corpo em êxtase que a seu lado
Liquefaz-se ternamente em deleite

Essa mulher traz um eco palpável
Dentro do peito arfante de falena;
Segue a cumprir a sina miserável

Em seus olhos fundos, uma faísca
De esperança afogada em decepções
De mulher gasta que não mais se arrisca.


domingo, 31 de maio de 2015

Fado

Minh’ alma está dorida de desenganos
A destilar ilusões à meia-luz
Cedendo ao fundo abismo que me seduz,
Que é o brilho dos teus olhos levianos

Choro só, escondido no frio refúgio
Das paredes do meu quarto, tão saudoso
Das espirais do teu cigarro vicioso
Cujas cinzas restaram como vestígio

Teu retorno é minha ânsia vital,
Espero ver-te na porta do meu quarto
Como outrora vieste como um vendaval

No breu dos teus olhos trazes afogados
Os meus e os teus rancores e delírios;
Quero em teu lagos continuar mergulhado.













sábado, 23 de maio de 2015

Missiva

Cora, escrevo agora sentindo a tua ausência
Emergir líquida dos meus olhos túrgidos;
Liquefazendo-me em tenro choro desabrido.
Insano desejo faz transbordar meus poros, como
Nas vezes em que me entregava do avesso
Aos teus membros e carnes e delírios sóbrios.

Saudade corre em minhas veias e artérias;
Invade meu peito árido, esmaga qualquer dignidade
Lúcida que ainda me resta. Deliro acordado com tua
Volta, com teu sorriso enfumaçado dizendo sim
Ao bom amante que à alcova quer tornar.