terça-feira, 15 de setembro de 2015

Vênus

Sob a abóbada luzidia
se estende assim faceiro
um encanto brejeiro
de felina fugidia
a ronronar sorrateira
com os olhos bem abertos
entre sorrisos incertos;
sua sedução verdadeira
rica em aromas e sabores
e em texturas inebriantes
liquefaz os amantes
com seus mil ardores;
essa mulher surreal
é alma e coração
beijo e paixão
num olhar irreal.
Essa mulher é um mundo.


Modelo: Cíci

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Relicário

Tua volúpia tão insana
hoje anda oculta no ocaso
a inspirar o meu parnaso,
pleno de intenções profanas

Ao meu toque saudosista
tua carne se contrai;
no relevo que me atrai
nem ouso pousar a vista

Sinto teus olhos em mim
e o coração solitário
a salvo em um relicário

Na escuridão dos teus olhos
quero cegar meus sentidos;
pena que estão tão cansados...


























Pintura: "La Baigneuse de Valpiçon" (1808), de Jean Auguste Dominique Ingres.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sua Preciosa

A sua bela aliança
que reluz na sua mão
insiste com altruísmo
em provocar meu mau gênio,
a perturbar meu lirismo,
desorientando as musas
que inspiram-me a redigir
versos trôpegos e tristes
que ocasionalmente são
dedicados a você.























Edvard Munch, "Jealousy", (1896)

domingo, 2 de agosto de 2015

Canção do Exílio Final

Minha terra tem pântanos
Onde canta o carcará
Os lamentos que aqui ouço
Não os ouço como lá.

Meu céu tem mais neblina
Minhas várzeas mais ardores
Meus bosques têm mais mistérios
Minha jornada mais horrores.

Em vagar sozinha à noite,
Mais temor encontro lá;
Minha terra tem desertos
Onde se perdem os condenados.

Minha terra tem odores
Que tais não sinto cá;
Em cobrar sozinha à noite,
Mais ventanias encontro lá;
Minha terra tem pesares
Onde canta o ser pútrido.

Não permita, patrão, que eu viva;
Para que eu sempre fique lá
A desfrutar das paisagens
Lúgubres em sua existência,
E que sempre possa ouvir
A sinfonia das almas a pedir clemência,
Pois eu sou a dívida
Que todos devem pagar,
Que ninguém pode evitar;
Tome cuidado, pois a Morte pode agora
Sua pendência cobrar.











Eco

Ouço de forma nítida
Os acordes lascivos
Da tua voz sutil
A ecoarem opacos
Pelos salões pulsantes
Do meu coração vívido
Que sangra comedido
À espera talvez
Do frenesi incessante
Que perturbado sente
Ao contato enlevado
Com o calor erógeno
Da tua tez abstrata.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Alva Musa

Alvo é o tom da macia tez
Que recobre o corpo delineado,
Desde a porcelana do nobre rosto
Ao contorno dos pés nus e lascivos

Essa mulher tem o mundo em si;
Exala o mal do amor quando fuma,
A envolver seus amantes com as espirais
Que saem fervendo do calor de sua boca

Com a parcimônia de um cisne
Ela anda sobre as longas pernas,
A procurar coisas que não têm nome
Destilando prazeres que não se creem

Dentro do olhar de gata mansa,
Repousa um rio inconstante
Que inunda sua face serena
Quando transborda por amores

Em meus devaneios alcoolicos,
Me imagino a beijar-lhe os seios
Tão rijos quanto meu desejo
Tão perfeitos quanto sua cintura

É mistério o sabor de seus lábios,
Bem como a textura da relva discreta
Que numa planície quente e secreta
Se estende no infinito de seu gemido.



sábado, 18 de julho de 2015

Erosão

Quando desceste de teu pedestal
De deusa exilada na Terra,
Teus ácidos olhos oceânicos
Banharam-me por inteiro,
Inundando meus olhos tristes
De brônzea solitude.

Teu alvo sorriso foi alvorada
A iluminar-me com ternura,
A aquecer meu peito gélido
Com teu brilho de astro
Universalizado e infinito,
Pueril como a minha conduta.

Orbitava ao redor dos teus seios,
Macios como o suave organdi
Que recobria teu relevo lascivo;
Liquefazia-me em agridoce volúpia
A afogar-me interna e externamente
Nas águas turvas da tua vagina.

Quando viraste poeira cósmica
Entre meus lençóis amarrotados,
O pó do teu rosto tocava minha face
Como as lágrimas de uma viúva
Que de tanto amar, desfez-se
No mesmo pó com que fora criada.