sábado, 23 de maio de 2015

Missiva

Cora, escrevo agora sentindo a tua ausência
Emergir líquida dos meus olhos túrgidos;
Liquefazendo-me em tenro choro desabrido.
Insano desejo faz transbordar meus poros, como
Nas vezes em que me entregava do avesso
Aos teus membros e carnes e delírios sóbrios.

Saudade corre em minhas veias e artérias;
Invade meu peito árido, esmaga qualquer dignidade
Lúcida que ainda me resta. Deliro acordado com tua
Volta, com teu sorriso enfumaçado dizendo sim
Ao bom amante que à alcova quer tornar.


sábado, 16 de maio de 2015

Destilação

Me pergunto com mórbida frequência
Em que paragens teu corpo descansa,
Em quais alcovas tu buscas vingança
Para saciar tua sutil eloquência

Teus cabelos negros antes compridos
Agora são curtos como a distância
Que separa tua brutal rutilância
Dos meus desejos tão logo esquecidos

Tenho-te perto do corpo, porém
Tão longínqua da alma, que já foi tua
E hoje já não é de mais ninguém

Outra vez desejo sentir teu sabor
Fresco, da tua silhueta nababesca;
Cuja lembrança só me causa dor.


















Louise Brooks, anos 1920.

sábado, 9 de maio de 2015

Gratidão

Vês que estrago fizeste
Em meu pobre coração?
Quando simplesmente cometeste
Entre escárnios uma traição?

Admire a úlcera cavada
Por tua cínica ilusão,
E aplauda a alma esfacelada
Por tua tórrida destruição!

Hoje tu desprezas
Quem mais te ama,
Amanhã meu canto é reza
Pra esfolar tuas escamas!

Tu não perdes por esperar
Minha singela retribuição,
Nem pense em escapar
Do ódio da paixão!

Minha ira em ti cairá
Até a eternidade ter fim,
E minha boca te amaldiçoará
lançando mil pragas ruins

Mas não temas, meu amor
Serei breve, juro,
Pois diante da tua perfídia,
Ainda sou o mais puro.




sexta-feira, 8 de maio de 2015

Devoção

Venero-te como quem venera uma deusa;
Muito embora tu não repares em meu culto
E tomes meus versos insanos como insulto;
Admiro do teu sorriso a curva reclusa.

Esta distância amarga que a mim impuseste,
Esnobe, própria de ti, que me tem na cama
Por pura vaidade, para sermos amálgama;
Dois corpos febris feitos de bruma celeste.

Em minhas narinas ainda sinto ardente
A fumaça solitária dos teus cigarros
Mesclada ao teu perfume agridoce e iludente.

A sombra silente do teu corpo sinuoso
Vejo-a turva ao se afastar da minha nudez
Que ainda é parte do teu ventre saudoso.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Névoa

“Transforma-se o amador na cousa amada”
Disse o poeta que muitas paixões teve;
Em ti não quero fundir sentimentos
Pois meus pressentimentos desconfiam
Dos teus olhos castanhos traiçoeiros.

Em teu ventre tu carregas lascívia
Cega e surda, que grita encarcerada
Por liberdade, mas tu bem disfarças,
A fama de donzela a preservar
Ante teu clã, cego como a malícia
Que te comanda, como a uma orquestra
Na epifania da orgia que te sustenta

Se meu desejo de fundir-me a ti
É tão utópico, lura impossível,
Em silêncio me retiro do teu
Convívio, a esperar que o meu desejo
Se dissipe, como névoa no ar puro.






sábado, 25 de abril de 2015

Persona

Em tua saliva deveras alcoolica,
O sabor dos lábios dela descansa
Úmido, destilado por teus beijos  
Crus de boêmio só, famigerado;
A máscara mais sólida que vestes.

Ao teu lado, o meu cigarro aceso
Queima os alvéolos do meu pulmão
Senil e inútil, só não arde mais
Que os átrios gêmeos do meu coração;
Que é bem mais mascarado que o teu.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Regresso

Regressar, regressar
de volta ao começo;
quisera eu poder voltar
ao tempo que não esqueço

Não esqueço porque não posso
esquecer o que não vi,
mas desde já endosso
que de algum jeito, eu vivi

Se não vivi, vivo agora
uma realidade de pó,
atrasado, fora de hora
e quase sempre só

Insosso é o tempo atual
onde os relógios decolam
onde pessoas se isolam
e tudo é sempre normal

Meu relógio difere de vários
fiz com que retrocedessem
ponteiros e calendários
para que não voassem

Volto noites, volto dias
rumo a um passado distante,
aqui vejo vidas vãs, vazias,
que me impulsionam a ir adiante

Mas cada coisa que vejo
parece impalpável a mim,
tudo nesse ambiente é um ensejo
para eu por nisto um fim

A angústia reverbera pelo meu ser
como a música de uma velha vitrola;
poderei eu em vida morrer?
ou continuo perseguindo esmolas?

Esmolas são tudo o que sobrou
dessa época tão declinada,
tudo o que o vento ainda não levou
junto com uma era já sepultada

Minha sina é viver no baú
que eu mesmo criei,
um mundo de todo azul
que nunca sentirei

Olho para trás e vejo o universo
que antes fora o passado;
olho para a frente e vejo o regresso
onde meu ser está aprisionado

Toda a minha trajetória
pode então resumir-se assim,
numa frase sem rima nem glória:
"Meu tempo é ontem."